terça-feira, 26 de agosto de 2014

A Trava da Menina

Ando com uma trava dentro de mim.
Como se algo estivesse faltando ou que precisa faltar para voltar a bater.
Um medo. Um orgulho em que nada pode ser admitido. Uma trava para ninguém entrar e ninguém sair.
Se todas as declarações de amor ou todos os sentimentos do mundo não tivessem valor.
Acho que é culpa das pessoas.
Invocando palavras e sentimentos só para preencher o vazio que você mesmo criou.
Mergulhar na ilusão e viver sabendo disso e nunca querer sair dela.
Quero amar alguém. De verdade.
E ser amada. Obviamente.
Mas primeiro, preciso me achar neste mundo de rostos apagados.
Como posso me achar?
Quem sou eu?
Uma menina pálida, medrosa, sem crenças, oca?
É, pode ser que eu seja assim.
Sendo que eu posso mudar!!
EU VOU MUDAR!!
Respire fundo. Pense. Imagine.
EU QUERO MUDAR!!
Tenho que gritar com todas as minhas cordas vocais até ficar rouca.
EU ESTOU MUDANDO!!
Ao terminar a frase, uma luz acende a mente da menina.
Egoísta. Cheia de cicatrizes. Que não entrega o coração a qualquer um. Um pouco manipuladora. Inteligente. Terrivelmente honesta. Ingenuamente quieta. Cheia de camadas. Cheia de sentimentos.
Simplesmente humana.

-x-

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Labirinto

- Entre aí!
Foi o que me mandaram.
Abri a porta.
Entrei.
Estava escuro, frio, misterioso.
Algumas luzes se acenderam aos poucos.
Com alguns sussurros macabros de companhia.
Estava desprotegida. Nua. Sem minhas camadas de complexidade e identidade.
Percebi que estava em um labirinto.
Comecei a ficar com medo. Quem não ficaria?
Por um momento achei que as paredes mudassem de lugar a cada piscar.
Ou a paranoia me impedia de pensar?
Velhas lembranças caindo como gotas de chuva.
Teias de problemas.
Paredes cheias de ilusões.
Coração desesperado. Mente despedaçada. Solidão gritante.
Mas, em um momento.
O tempo deixa de ser tempo.
O olhar expande.
Suas camadas lhe dão consistência.
As vozes perturbadas se calam.
Só uma voz. Uma só melodia.
O bater do coração esperançoso.
E um fio vermelho guiando até a saída do labirinto.
O labirinto dentro de cada um de nós.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Corações partidos, Clarice e Cinza.

Na vida, eu tenho três certezas.
Primeira. Eu nasci.
Segunda. Um dia morrerei.
E a terceira. Você terá seu coração partido ou irá partir um em qualquer momento da sua vida.
Não que esta ordem seja seguida perfeitamente, porém vai acontecer.
Mais cedo ou mais tarde.
E não há como evitar.
Em um recente caso semelhante, uma menina teve por um momento sua dor consolada.
Por uma estátua.
Mais precisamente na Praça Maciel Pinheiro. Estátua de escritor.
Escritora.
Se fosse uma pessoa mais comum, como um político ou um figurão da sociedade, não teria o mesmo impacto. Poder ser que tenha até mais impacto do que aquela história.
Nunca iremos saber. E eu sou somente o narrador.
A estátua era de uma tal Clarice Lispector, nunca li nenhum texto dela, então não julgo.
A menina ficou lá parada, por alguns segundos de eternidade.
Sim, o tempo é relativo para todos.
Nesse meio tempo de trocas de olhares, surgiram perguntas, respostas, indagações e certezas.
Nesse momento, a menina se sentiu uma cor.
Nem claro, nem escuro.
Nem homem, nem mulher.
Ela também se sentiu flexível, um coração flexível.
Por isso que eu nunca entendi das pessoas entregarem seu coração.
Um coração flexível que pode amar tudo e a todos e principalmente, amar a si mesma.
Isso foi somente por causa de uma estátua.
"O que aconteceu depois?" Você pergunta.
Primeiro, ela notou que outras pessoas não viam as coisas do mesmo jeito. Provo isso com o fato que a mãe dela nunca notou aquela estátua.
E ela estava lá durante todo o tempo. O tempo todo.
Será que ainda é tempo de morangos?